A INCULTURA DO CANCELAMENTO

Originariamente, a tal “cultura do cancelamento” não parece um fenômeno cultural. Não reflete a evolução dos costumes, das tradições, menos ainda um “cabedal de conhecimentos de um grupo social”. Parece, sim, uma ação de marketing. Um produto digital, talvez. Com persona, estratégia, lançamento. A cultura do cancelamento pegou a muitos de surpresa, como uma tendência neon imposta por figurinistas de renome após décadas de absolutismo tom-pastel. Cores berrantes agrediram os olhos, mas não encontraram qualquer empecilho para se infiltrar em acessórios e vestimentas, quando algum influente disse que assim deveria ser.

Na incessante busca por conversão, likes e fazer parte, muitos seguem o ritmo da dança das virtudes. Qualquer discurso informal deve antes obedecer a um rigoroso protocolo humanista, sendo seu orador, preferencialmente, a encarnação da excelência moral e da conduta desumanamente ilibada. O sufocamento da liberdade individual se impõe ao que se pensa, ao que se faz e ao que se fala. Embora o novo código estabeleça respeito e empatia universal, a capacidade de se colocar no lugar do outro e a tolerância às suas escolhas e especificidades só ganham utilidade e se efetivam quando da defesa de uma panelinha, de um pequeno setor no fim do corredor.

Carlinhos Maia, conterrâneo de meus ascendentes, perdeu “amigos” e patrocinadores por não beijar seu marido no altar. A presença feliz de seus pais, de sua sogra, já o fazia amado e respeitado como indivíduo, como ser humano. Não precisava cumprir um checklist midiático e forçar, goela abaixo, quem é e como vive à sociedade Penedense. Aliás, quem conhece Penedo, sabe. Eu, por exemplo, aos treze anos, caí na besteira de ir à festa de Natal na casa de minha avó, Dona Glorinha, aderindo às tendências da época e exibindo impudicamente meu umbigo. Levei uma chamada desconcertante na frente da família inteira. Nunca mais me meti a besta. Carlinhos, nitidamente mais corajoso que eu, acabou virtualmente linchado. Não porque levou ao altar outro homem à vista de tantas Glorinhas. Mas porque as autoridades do politicamente correto não acharam suficiente todos os holofotes direcionados ao interior de Alagoas, não se contentaram com tantos senhores e senhoras de outros tempos, de outra geração, genuinamente alegres pela felicidade do vizinho, do conhecido, do amigo Carlinhos. Não acharam bastante sua liberdade de ser. Não examinaram nem por um minuto o cenário, a história, a conjuntura local. Quantos não se beneficiarão da trilha aberta a picadas por Carlinhos? O alto comando discorda – pela superioridade moral que diz possuir, só um beijo lascivo atenderia às demandas de quem se diz par.

Gabriela Pugliesi, profissional na arte de pisar em ovos, em usar as palavras certas para agradar a gregos e troianos, divulgadora do bem, da alimentação do bem e da conduta do bem, não foi por menos levada à forca virtual. Decidiu, no auge da pandemia, se aglomerar a meia dúzia de amigas em casa. Todas adultas, em pleno gozo de suas faculdades mentais, alfabetizadas e cientes dos riscos que estariam colocando a si mesmas. Ponderaram, decidiram. Por tal decisão, foram alçadas ao nível das bruxas medievais e queimadas vivas, como os detentores do certo, do digno, do honroso entenderam que deveriam ser. Gabriela pediu desculpas, encerrou sua conta no Instagram e após longo período offline, retornou pedindo clemência por um sem número de vezes.

Dizem por aí que estamos a caminho do progresso, da evolução. Leis, códigos e a mão pesada do Estado intervêm em muito mais do que deveriam, impondo limites ao nosso desejo, mas, principalmente, à nossa ação. Construímos um monumental arcabouço punitivo para as condutas humanas mais execráveis e, mesmo para elas, já se defere o direito ao esquecimento – para que, após o pagamento da pena, cada um toque sua vida, novamente, como quiser. A muitos, não se exige nem isso. Porque, a despeito do invólucro nobre de muitas das exigências da moda, os valores mais elevados e férteis ao surgimento de civilizações que se prezem minimamente não parecem despertar qualquer interesse ou mania coletiva. Honestidade é um exemplo – jamais ganha as passarelas.

Na contramão do real progresso, parimos, nutrimos e vemos crescer uma nova geração de futriqueiros, curiosos na janela, ociosos na calçada. Fiscais e fixados à vida alheia. Caga-regras num bizarro tribunal de exceção. Umas pragas infestadas em todo canto. Não em Penedo, como pude ver no último verão. Lá, parecem todos ocupados em manter o trabalho em dia, a casa limpa, a cama arrumada. Como Dona Glorinha, não perdem tempo com o mundo extra-muros. Quem quiser que ponha seus umbigos à mostra, que case, descase, que se aglomere. Que siga a tendência que melhor lhe aprouver. Mas, lá fora. Não na casa dela.

LENTES DE AUMENTO

Dia desses, uma grande amiga pediu a mim um norte sobre adestramento canino. Não sou uma especialista no assunto. Baco, meu lindo e temperamental shih-tzu, não senta quando peço, não dá a pata quando estendo a mão, mas sai do meio do caminho quando peço licença e faz xixi no lugar certo desde seus três meses de vida – sendo esta última a distinção que despertou a curiosidade de minha amiga.

A fim de ajudá-la a educar sua nova mascote, uma pequena maltês, expliquei o pouco que havia aprendido na TV com “o encantador de cães”, César Milan: reflexo condicionado, estímulo, premiação às atitudes corretas, indiferença aos equívocos e repetição, uma incansável repetição. Como costumamos fazer, permitimos que a conversa descambasse para outros assuntos, que embora humanos, não me pareciam totalmente dissociados.

Na tentativa de evitar a morte, que uma hora ou outra nos atingirá a todos, muitos têm visto nela uma saída para as angústias que se apresentam no isolamento. Uma psiquiatra afirmou há dias – ou meses, já não sei dizer –, que a quantidade de pessoas desistindo da vida aumentou triste e consideravelmente. Ao telefone, eu e minha amiga falamos também disso e não pude evitar pensar sobre o que podemos fazer para lutar e vencer a nossa própria incoerência.

O primeiro embate, acredito, é se dar conta de que boa parte dos problemas evidenciados pelo isolamento já nos era familiar, já nos fazia companhia. Os defeitos de quem divide conosco o mesmo teto, as falhas nos nossos relacionamentos, os erros passados, a ausência de garantias, a falta de dinheiro, para muitos de nós, já eram de nosso convívio próximo. A rotina atarefada, o tempo escasso para um sem fim de metas, as distrações da vida externa, no entanto, ocupavam quase que inteiramente o espaço disponível à instalação do ócio – e ócio, como se sabe, não é oficina de coisa boa.

O segundo ponto, decorrente do primeiro, é lembrar que na impossibilidade de esconder embaixo do tapete ou de deixar para amanhã o enfrentamento ao que nos importuna, a exposição constante, diária, sem folga, férias ou mesmo intervalo intrajornada, projeta os holofotes e cria sombras horrendas, maiores e mais imponentes que o objeto em foco. Mas, como se diz a uma criança de 4 anos em uma, duas, em todas as noites: não há fantasmas, não há monstros sob a cama.

A terceira e última questão a ser ponderada é jamais esquecer que somos todos a razão de sorrir de alguém. A nossa capacidade de pagar boletos, que, como tudo mais, não é definitiva, nem estável, nem constante, não nos define em absoluto. Não é isso que atrai ou repele o afeto alheio. A vida é cíclica e a maré não só seca, nem só enche. Das palavras em voga, repetidas por todos até causarem aversão, resiliência é a que entendo mais útil. É preciso persistência, insistência e visão a médio/longo prazo. Assim como no adestramento canino, os erros, as falhas, as perdas não devem ganhar atenção para que não cresçam. Os pequenos acertos, por menores que sejam, devem, contrária e enfaticamente, ser celebrados para que desabrochem e se estabeleçam.

Baco sujou a casa inteira até o dia em que deixou de sujá-la. Àquela época, eu não tinha certeza ou qualquer garantia de que, repetindo conselhos de um guru de TV, ele aprenderia o certo algum dia. Não me dei outra opção senão a de continuar. Repeti dia após dia, várias vezes por dia, o que acreditei ser o certo. Confiei. Lutei fortemente contra meu instinto primeiro em reagir a seus erros, em puni-lo. Engoli a seco a impaciência, o cansaço, a desconfiança e pus seus raros acertos em lentes de aumento. Deu certo. Cresceram, firmaram-se e há 10 anos ele faz xixi no mesmo lugar. Não esmaeçamos, portanto. Ainda estamos sujos, confusos e vacilantes. Mas sigamos firmes. Desconfiados, talvez, mas firmes. Não enxergamos ainda, mas quase posso sentir: o resultado, a luz, a premiação que buscamos, o consolo para todo esse sofrimento, está logo ali.

O QUE NOS PRENDE

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Dentre os pecados capitais, a inveja talvez seja o único unânime no constrangimento que provoca. Não há quem assuma que sente, quando sente, nem por quem sente. Colocar-se como objeto de inveja, no entanto, não parece fazer vergonha quando se analisa o volume de invejáveis autointitulados e a desinibição com que usualmente pavoneiam sua suposta condição. Nas redes sociais, por exemplo, não é necessário muito tempo ou esforço para encontrar publicações de pessoas incumbindo à inveja as críticas que recebem por seus erros e fracassos.

Em Mal Secreto – inveja, Zuenir Ventura faz uma distinção logo de cara entre inveja e cobiça que vale sempre a lembrança. Segundo o autor, a cobiça se atém ao desejo pelo que é do outro, sem que isso implique a destituição da posse ou qualquer outro prejuízo ao paradigma. Já a inveja seria o círculo concêntrico de maior diâmetro, que engloba a cobiça em seu núcleo e a qualifica pelo dissabor que a prosperidade alheia desperta. É, ela é feia. Repugnante. E quando se converte em imagem mental ou real, de nós mesmos ou de terceiros, causa tanta repulsa quanto qualquer de nossas iníquas humanidades. Não tratarei mais dela, portanto. Falarei da inofensiva cobiça apenas. Do desejo individual que não impede ou se ressente de quem possui ou também deseja.

Anos atrás, assistindo ao programa de Jamie Oliver na TV, um diálogo entre ele e um morador de Nova Orleans me impactou. Jamie estava gravando uma série de episódios sobre a culinária americana e chegou à Luisiana poucas semanas depois da passagem do furacão Gustav pela mesma região. Intrigado, o apresentador questionou um de seus entrevistados sobre qual seria a razão de não saírem todos de lá com seus filhos e panos de bunda. Ele próprio, um pouco antes de obter sua resposta, afirmou que esta seria a sua escolha, caso morasse em um lugar tão sujeito a desastres naturais (os furacões Andrew e Katrina já haviam deixado ali um legado de devastação e morte em intervalos não muito extensos). O entrevistado viu no afeto a justificativa da permanência, sua e de muitos de seus conterrâneos. A família, os amigos, as redes comunitárias, a história pessoal eram todos fatores vinculativos, eram todos elementos entrelaçados e enraizados no afeto.

Segundo a primeira lei de Newton, todo corpo continua em repouso ou em movimento até que forças opostas aplicadas sobre ele alterem o estado em que se encontra. Pelo que se vê, a natureza e seus propósitos secretos não parecem impingir força suficiente à migração de muitos dos habitantes da Luisiana. Daqui debaixo, embora num ambiente infenso a catástrofes naturais, a insegurança pública e a jurídica, a hostilidade generalizada, a cultura da corrupção e a irrevogável Lei de Gerson parecem aplicar, a meu ver, força mais do que suficiente para que muitos de nós pensemos em nos retirar. Poucos, no entanto, mesmo podendo, abandonam suas casas, desencravam suas raízes. A maioria de nós resiste, a maioria de nós se mantém umbilicalmente ligada a nossos consanguíneos, intrinsecamente atada a nossos irmãos por eleição. Impelimos força contrária digna de ventanias devastadoras e, como se sabe, da soma de forças opostas equivalentes nada resulta.

Eu não estou entre os que podem sair. Estou, sim, entre os que pensam nisso com alguma frequência. Não tenho dinheiro ou posses que me permitam fugir, mas das apostas na loteria de uma vez ou outra me concedo o direito de sonhar com a porta de saída. Não tenho dupla nacionalidade e longe de mim invejar quem a tem. Não vim falar sobre inveja, como disse. Não me incomoda quem quer ficar, não me causa qualquer desconforto também quem deseja ir. Agora há no jardim do vizinho o que desperta não só a minha atenção, mas, principalmente, o meu interesse: o passaporte extra e o desprendimento de partir. Nunca tive o primeiro e o segundo perdi. Se você os tem, fique tranquilo. Não é inveja o que sinto, garanto-lhe. Mas, por via das dúvidas, não custa rezar uma Ave Maria antes de dormir.

LIÇÕES DE MESTRE GRAÇA

Assim como Graciliano, não sou dada a releituras. Uma das exceções dele foi Menino de Engenho, escrito por Zelins, como chamava José Lins do Rego, seu grande amigo. Uma das minhas exceções é este livro, Graciliano: retrato fragmentado, escrito por seu filho, Ricardo Ramos.

Entre lembranças aleatórias sem compromisso com a cronologia, realmente fragmentadas, conhecemos o pai, o filho, o marido, o escritor, o amigo, o alagoano, o engajado, o ex-prefeito, o ex-detento, Graciliano. O Graciliano avesso às exclamações porque não era idiota para se espantar à toa; às reticências porque se há o que ser dito, pois então que o seja; e aos “quês”, as grandes e verdadeiras pragas.

Dos tantos retratos exibidos por Ricardo, dois consolam minha alma. O primeiro, quando Graciliano pede a Ricardo que revise a segunda edição de Angústia porque se continuasse ele próprio revisando-a, certamente tal edição sairia em branco. Se nem ele gostava dos seus escritos deslumbrantes, quem sou eu para gostar dos meus. O segundo, da sua amizade tão íntima e pessoal com Zelins. Este chegado à direita, ele, à esquerda. Não há registros de que esta discordância os levasse a xingamentos, ataques pessoais ou afastamento por “divergência de valores”. Os valores eram os mesmos, queriam ambos o bem-estar geral, a dignidade mínima. Não pelos mesmos meios, apenas. Quando Graciliano saiu da prisão, foi Zelins quem lhe deu abrigo. O par, a concordância cega e absoluta, o aplauso fácil e irrestrito não serviam de base àquela amizade. O respeito à existência do outro, à sua história e às suas possibilidades, sim.

Isso, nos dias de hoje, parece invencionice, ficção. Conhecemos pessoas desde a infância, às vezes, frequentamos suas casas, convivemos com suas famílias. Sabemos de sua hombridade, de sua retidão. Mas, ao descobrir em quem votaram nas últimas eleições, todo o lastro visto e vivido escoa pelo ralo, reduzindo os até então amigos a rótulos e julgamentos rasos, pobres e irresponsáveis. Os maiores erros da humanidade, como o nazismo, o fascismo, o comunismo, o holodomor, que não devem ser apagados ou esquecidos para que nunca se repitam, assim como a própria descontextualização da história, foram banalizados e postos à mesa junto a uma porção de batatas fritas – servidos em abundância nauseante mesmo a quem lhes imprime maior força de repulsão. Não é inteligente, nem engraçado. Não merece louvor, sequer faz sentido. Aliás, na ausência de sentido, sigo na dissidência, porque, como bem disse Graciliano, “se a igualdade entre os homens – que busco e desejo – for o desrespeito ao ser humano, fugirei dela.” Eu também, Mestre Graça. Eu também.

DE VOLTA PARA O FUTURO

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Entre as poucas variações de atividade e cenários a que o confinamento tem me submetido, memórias da infância e da adolescência – nem sempre agradáveis -, insistem em ressuscitar. Há poucos dias, por exemplo, o meu ingresso no ensino fundamental veio à tona. Meu início no ensino infantil também. Tratemos deste último primeiro.

Não são extensas, nem variadas as lembranças do início de minha vida escolar. Do meu primeiro contato, especificamente, só lembro desta cena: minha mãe me entregando a uma professora simpática, que parecia feliz em me ver. Talvez eu estivesse atrasada, já que a sala estava cheia de crianças brincando em mesas coletivas. A professora me deixou à vontade para escolher onde sentar. Decidi por uma das cadeiras vagas, próxima à cabeceira, de uma mesa de meninas. Havia ali, à minha frente, um punhado de brinquedos esquecidos, desinteressantes aos olhos das outras, escolhidos por ninguém. Puxei para mim uma panelinha. Imediatamente, uma colega sentada à frente, mas mais à direita, tomou-a de minha mão e disse: essa não. Do mesmo montante desprezado, peguei, então, uma bonequinha. Novamente, essa não. Permanecemos nessa brincadeira até não restar qualquer pratinho ou ursino rejeitado. Tudo o que eu toquei passou de obsoleto e desprezível para imprescindível. Não lembro de ter me chateado ou me entristecido. Lembro de ter colocado os cotovelos sobre a mesa e descansado o queixo sobre os punhos fechados, quando então a professora pôs-se diante de mim e perguntou por que eu não estava brincando. Certamente pensei na resposta, mas tenho quase certeza de que não ousei verbaliza-la ali. Ela, então, puxou a cadeira vazia, sentou-se à minha frente e com seu antebraço trouxe ao meu alcance os brinquedos que me foram tomados e mais alguns. Não foi ali que me ensinaram a reivindicar direitos, nem foi ali que aprendi a me defender. Tanto conhecimento construído ao longo de séculos, tanto conhecimento encapsulado em livros de todos os tipos, tanto conhecimento à disposição dos que deveriam nos guiar, mas ali, na escola, não podiam encurtar o caminho e me dar algumas respostas. Eu deveria deduzi-las por conta própria, praticamente percorrendo o longo caminho das gerações anteriores, de pensadores anteriores, dos corajosos do passado que puseram uma hipótese à prova e facilitaram a vida dos que vieram depois. Não a minha, como se vê. Porque não foi ali que me ensinaram uma série de coisas, nem foi ali que deduzi umas tantas soluções. Foi depois. Muito, muito depois.

Já maiorzinha e alfabetizada, comecei o antigo primário pelo primeiro degrau de um colégio enorme e tradicional, de onde eu só deveria sair para entrar na faculdade. Como em A Cidade e os Cachorros, de Vargas Llosa, os mais novos eram os cachorros, humilhados pelos mais velhos até passarem ao ano seguinte, desatados do lugar de calouros. Eram muitas as práticas de subjugação, mas a que recordo com mais clareza é a “cusparada”. Todo santo dia alguém entrava na sala com a camisa molhada por tentar se limpar das nojeiras dos veteranos. Aliás, ter apenas a camisa suja era coisa de afortunado. Muitos recebiam o escarro no rosto, nos olhos, no cabelo. Pessoalmente, nunca fui escarrada. Era proibido atacar as meninas. Direitos iguais não eram tão alardeados naquela época e esse desequilíbrio nos conferia, a mim e às demais, um privilégio, uma proteção. Não o suficiente para que eu sentisse que não havia o que temer. A mim, sempre houve o que temer. Afinal, só Deus sabia quem havia criado aquela norma, quem fiscalizava seu cumprimento e quem vigiava a idoneidade do fiscal. Quando formavam um corredor polonês para desferir tapas e pontapés nos meninos, acontecia de uma menina receber uma cusparada reflexa, não intencional. Nessas horas, nos uníamos. Não para contra-atacar, nem mesmo para autodefesa. Nos juntávamos para sonhar. Para desenhar oralmente e almejar o paraíso na Terra, a paz mundial, a liberdade, igualdade e fraternidade reservados aos integrantes da segunda série.

No ano seguinte, lembro do semblante leve e destemido que exibíamos. Parecíamos todos libertos e recém chegados à Terra Prometida. Extasiados. Embevecidos. Encantados. Iludidos. Não demorou muito para meus contemporâneos tomarem para si a posição de carrascos. Pareciam esquecidos do quão dolorosa havia sido toda a humilhação do ano anterior. Pareciam alheios ao sofrimento, ao terror da constante ameaça. Idiotas. Nunca quiseram ser livres, eles próprios. Nunca quiseram vagar em paz, gozar do direito de ser e do de não ser. Nunca quiseram passar desapercebidos pelas escadarias. Sempre quiseram a manutenção do horror, da tirania. Não desejaram o pior a seus algozes. Nunca se dirigiram a eles diretamente ou deles se vingaram. Desejaram seus postos, apenas. Para exercer o poder que ele oferecia, para reproduzir contra terceiros a coação que até outro dia lhes ocorria. Idiotas.

Outro dia, me recusei a retornar à oitava série. Hoje, gostaria de não reviver o ensino infantil, onde os que supostamente mais sabiam intervinham como se soubessem tanto ou menos do que um de nós. Hoje, também, gostaria de esquecer o primário, época em que a expectativa de paz e o desejo de evolução moral não serviam para muito mais que a manutenção da própria guerra, num ciclo de retroalimentação entre vítimas e malfeitores – faces de uma mesma moeda. Mas já voltamos para lá, não é? Já nos empurraram escadaria abaixo, escarrados e subordinados às promessas falsas de sempre, aos sonhos irrealizáveis de sempre. Cara-a-cara com o primeiro degrau, novamente, não nos resta muito: permanecer tombados, estatelados, derrotados por fantasias privadas de sustentação ou, como os cachorros, lamber as próprias feridas, mirar no último degrau, onde está o futuro e, sem vacilar, voltar a subir. Eu estou pronta. Mais alguém?

PAIS, LEITORES CRÍTICOS: O VERDADEIRO PRIVILÉGIO


Embora a imposição de estar em casa em tempo integral nos dê a falsa impressão de mais tempo disponível, sinto, pessoalmente, que mesmo dormindo mais tarde e acordando ainda mais cedo que o usual, falta-me tempo para a execução de todos os meus afazeres. Não por ter mais e novas demandas. As minhas, pelo menos, continuam as mesmas. Mas muito mais por ter encaixado entre um afazer e outro a maior ilusionista temporal de todas, a leitura. Dos efeitos colaterais da quarentena, a leitura em série tem sido o que mais me agrada.

Diminuí o desperdício em redes sociais e passei a ler um livro atrás de outro. Coloquei minha grande fila de espera para andar. Um dos que li recentemente, O Mundo Assombrado pelos Demônios, de Carl Sagan, é a minha recomendação do dia. Sagan já me era familiar em razão das lembranças de meus pais do período em que moraram fora e assistiam ao seu brilhantismo na TV. Ele foi um dos maiores defensores do pensamento cético e da desmistificação da ciência para leigos. Já nas primeiras páginas, nota-se que era mesmo um craque no que fazia.

Sagan revela, logo no início, não ter aprendido as coisas mais essenciais com os seus professores da escola, nem mesmo com seus mestres universitários, mas com seus pais, que nada sabiam sobre ciência, mas estimulavam sua curiosidade, principalmente, pelo exemplo da leitura.

Minha identificação foi imediata.

Primeiro, porque essa foi também uma das grandes sortes que tive na vida. Observar a quietude e a concentração de meus pais lendo o que quer que fosse despertava em mim a curiosidade de saber que graça havia naquele folhear de páginas. Ainda, uma das grandes, senão a maior lembrança afetuosa da infância é a memória de meu pai lendo Histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos, por uma pequena sucessão de noites. À exceção da obrigatoriedade de buscar toda palavra desconhecida no dicionário, essa é das bagagens mentais que mais gosto.

Segundo, porque foram eles também que impuseram a mim e a meu irmão essa última lembrança, já não tão agradável, já bem mais maçante: a busca pessoal pelo significado de palavras novas, inicialmente; a busca pelos fatos, pelo outro lado, pela verdade, por fim. Era chato. Era cansativo demais. Se eles já sabiam a resposta, porque não a entregavam logo e acabavam com aquele martírio?

Nada me foi mais útil.

Os gatos pingados que leem isso aqui passaram pela alfabetização, obviamente. Muitos terminaram o ensino médio. Alguns colecionam diplomas e certificados. Não sei quantos, mas certamente não todos se deram conta da distância que há entre notas e inteligência, entre criação e reprodução, entre o que dizem seus títulos e o que são.

Eu, por exemplo, entendi logo cedo que só seria premiada com boas notas e várias estrelinhas em determinadas matérias se entregasse ao professor, através da minha caligrafia, o que ele queria, o que ele pensava, o que ele dizia univocamente. Quando ainda me achava livre para defender as conclusões a que chegava das coisas que lia, via e ouvia fora dali, escrevi uma redação questionando a provisoriedade da CPMF, que estava sendo prorrogada àquela época e sobre a qual todos falavam na TV. Empregar o termo ‘provisório’ numa cobrança que não trazia em si o seu fim não fazia dela provisória, escrevi. Questionei também a cobrança de tantos impostos, mediante a promessa de serviços públicos que, quando prestados, eram sabidamente ineficientes. Acrescentei a frase preferida de minha mãe: “tudo é pago em duplicidade”. Dias depois, recebi minha prova sem qualquer marcação em tinta vermelha que justificasse aquela nota tão ruim. Perguntei a razão daquilo ao professor que me respondeu apenas: não está boa. Contei aos meus pais com tristeza o que havia acontecido e, sem qualquer vacilo, me entregaram a solução mais pragmática possível: “repita o que ele disse em sala, diga o que ele quer ouvir e seja aprovada”.

Nenhuma receita de bolo deu mais certo para mim do que essa. Até experimentei escrever livremente muitos anos depois, na faculdade, o ambiente dito propício a essas coisas. Fim do semestre, aula de Penal I, o professor, doido pra se ver livre das inúmeras correções que antecediam as férias, informou-nos como se daria nossa última avaliação: uma redação contendo nossa opinião sobre a liberdade. Ingênua, expus exatamente o que pensava. Comecei com “somos livres como uma folha de papel pautado, cheia de bordas e limites que não podemos transpor”. Terminei com “não é porque podemos escolher entre duas alternativas ruins que somos livres”. Recebi a nota mínima a não estragar as férias do professor, novamente sem qualquer correção ou contestação em vermelho, e, com ela, a confirmação de que eu não era mesmo livre.

Volto a Carl Sagan. Assim como ele, sou grata aos meus mestres, todos. Se hoje sei ler, escrever, somar, subtrair, se hoje sei que antibióticos não matam vírus, apenas bactérias, devo a eles. Meus pais não teriam me transmitido tanto com a mesma didática, com a mesma paciência. Mas, assim como Carl Sagan, de novo, agradeço ainda mais a meus pais. Por contestarem cada convicção apressada, cada certeza infundada. Por incentivarem a investigação meticulosa, a leitura de todos os lados, a escuta de todas as vozes. Ainda, por me permitirem concluir de modo diverso, por evidenciarem a discordância como pressuposto do diálogo, o erro como algo que nos é inerente.

Meus pais não foram, e não são, condescendentes – como já ouvi de bocas impróprias. Quando tentamos transpor as temíveis margens intransponíveis, fomos punidos com rigor. Nunca se tratou de condescendência. Eles foram, e continuam sendo, defensores da liberdade. Não dessa liberdade vulgar, da boca de Matilde, usada para defender autoritarismo, intervenções e imposição de narrativas à força. Mas da outra. A estrita, a real, a que nos permite ser e não ser, a que nos permite escolhas, desde que por elas paguemos o devido preço.

E, pela permissão de ser livre dentro de um papel pautado, livre, responsabilizando-me pelas minhas decisões, reconheço, sim, um monumental privilégio. Reconheço, agradeço e me esforço para honrá-lo e merecê-lo. Só não me desculparei por isso.

DE VOLTA À OITAVA SÉRIE

Que eu me lembre, tive o primeiro contato com o coletivismo na oitava série. Naquele ano, eu era líder da turma pela segunda vez, eleita pela maioria dos meus colegas sem mesmo ter me candidatado. Quem lê essa informação imagina que eu era muito querida, popular, admirada pela turma. Não era bem assim.

Naquele ano, minha turma tinha ganho mais um integrante, repetente, com ar de autoridade que despertava em muitos o encantamento de quem parecia estar à frente, de quem supostamente sabia mais – algo incoerente, vez que se ele de fato soubesse mais, não estaria ali, de volta ao passado.

Fato é que, também sem me candidatar, fui eleita por ele sua presa principal, aquela que seria diuturna e constantemente achincalhada, ridicularizada e diminuída por apelidos e brincadeiras de mau gosto antes, durante e após as aulas. Naquele ano, minha vida foi um inferno.

Adolescentes são seres em transição, não são mais crianças, mas também não possuem o discernimento que se espera de um adulto integralmente desenvolvido. Aos catorze anos, minha blindagem emocional não havia dado sinais de que brotaria um dia e sem ela, aquilo doía mais, muito mais do que eu fazia parecer.

Algo interessante, que notei na época, foi o comportamento dos meus colegas, todos de longa data. À presença do meu algoz, eram todos debochados, pervertidos, canalhas. À sua ausência, eram as mesmas pessoas civilizadas, polidas e gentis que havia anos demonstravam ser. Vez por outra, um deles me procurava privadamente para dizer o quanto estimava minha amizade, o quanto discordava do que “faziam” comigo, embora não resistisse aos risos quando a avacalhação começava. Aquela variação comportamental, no entanto, não melhorava, nem piorava o julgamento que eu fazia deles: manada. Deixavam-se conduzir sem questionamento, maquiavam a própria racionalidade e subjugavam todo e qualquer impulso em sentido contrário com a finalidade de não serem eles próprios as próximas presas ou, pelo menos, postergarem ao máximo a sua vez. É a tal da camuflagem das zebras sobre a qual Jordan Peterson fala aqui: suas listras pretas e brancas não servem de disfarce nas savanas, não passam despercebidas pelo meio em que vivem, mas enganam bem seus predadores enquanto grupo. Quem não se destaca, não vira presa – a máxima que regula as zebras, a máxima que regulava meus colegas da oitava série.

Olhando para trás, chego a ser grata por ter sido presa logo cedo, por ter sido caçada, alcançada e ido a abate enquanto ainda limpava os pés no capacho da vida adulta. Foi ali, aos catorze anos, que aprendi a não levar a sério os elogios, os afagos, as declarações exaltadas de quem se diz amical, de quem se diz afetuoso. Foi ali, aos catorze anos, que aprendi a impedir que o meu interior se escandalizasse a cada nova ofensa, a cada novo dedo apontado, a cada nova rejeição. Foi ali, aos catorzes anos, que enxerguei nitidamente indivíduos, cheios de alternativas e possibilidades, fazendo escolhas em comum, unindo forças em detrimento de outro indivíduo isolado, dissidente. Foi ali, aos catorze anos, que aprendi, finalmente, a não ter a aceitação como um norte, a não esperar reconhecimento, aplausos ou, como se diz hoje, biscoitos por agir conforme o ideal de um coletivo imaginário.

Nunca, jamais, nem por um minuto, dos catorze aos meus atuais trinta e oito anos, desejei a quem quer que fosse o que não desejo a mim mesma. A liberdade de agir, pensar e falar que demando para mim é a mesma, sem qualquer fração a menor, que desejo a todo e qualquer ser humano. Omitir-se, exceder-se, agir como zebras enterrando a lógica e distorcendo os fatos para servir de suporte ao plano de poder alheio, ou para ganhar “likes“, seguidores e alimentar-se da admiração de boçais, assim como reduzir próximos e remotos a rótulos execráveis que em nada se assemelham aos seus significados também são itens do cardápio – caros, porém disponíveis a quem puder e quiser pagar por eles. Eu não posso. Eu não quero. Eu me recuso. Eu me recuso a optar por qualquer deles. Eu me recuso a obedecer a lideranças abjetas. Eu me recuso a seguir a manada hipócrita. Eu me recuso, principalmente, a reviver a oitava série.

ACHISMOS, ATECNIA E MANIPULAÇÃO

Mais nova, eu não sabia bem o que queria ser quando crescesse. Queria ser, de tudo, um pouco. Viver em outras peles e ser muitas outras numa vida só. Assim, prestei vestibular para tudo quanto foi curso – jornalismo foi um deles.

Entrei na faculdade de Comunicação certa de que jamais seria apresentadora de telejornal. Gostava de escrever, mas dali eu queria sair radialista – ouvir música o dia todo e ainda ser remunerada por isso.

Nas primeiras aulas, pude rememorar aquela do meu ensino fundamental que me apresentou aos requisitos da escrita jornalística. Narração descritiva, objetividade, clareza. Disseram-me, tanto lá quanto cá, ser permitida a opinião do jornalista em raríssimas hipóteses, sendo a principal delas, quando sua experiência e autoridade despertassem no leitor o desejo mercantil. Mas, ainda assim, tal opinião revelaria-se ou deveria se revelar clara e transparente, não restando dúvidas quanto à sua natureza tendenciosa, de apreciação crítica, pessoal e ideológica.

Não demorei muito para ver que aquela não era a minha praia. Escrevendo ou ouvindo música, queria ser livre para não me ater a descrições ordinárias, pôr minhas experiências sensoriais em lentes de aumento, ouvir e sugerir o que agradava aos meus ouvidos, não aquilo viralizado segundo estratégias de marketing para estourar no próximo carnaval. Larguei o curso e, encantada com o surgimento das primeiras páginas pessoais on-line, iniciei meu primeiro blog.

Por muito tempo, porém, os conceitos do trabalho jornalístico orientaram minhas escolhas sobre onde e como me informar. Os maiores e mais antigos veículos de comunicação pareciam, além de resistentes aos efeitos de uma grande exposição, obedientes aos princípios básicos do jornalismo. Pareciam imparciais, fieis à realidade, noticiando fatos, os mais relevantes, e deixando o bagaço para os jornalecos – estes, sim, abastecidos pela ausência de profissionalismo, desimportância de conteúdo, má redação e maledicência apelativa. Era fácil selecionar. Era rápido me inteirar das ocorrências do mundo.

Por muito tempo, foi assim – embora, para a boa ciência, a memória não seja reconhecida como prova substancial, em razão de sua enorme suscetibilidade ao esmaecimento, às ilusões e suposições baseadas em pouca ou nenhuma ciência empírica. Mas, segundo meus – talvez falhos – arquivos mentais, só há pouco tempo o jornalismo deixou de ser assim.

No reverso do propósito, seu maior compromisso, hoje, parece a desinformação, a enganação, a perfídia. Na contramão da exatidão, verdades são distorcidas e maquiadas para facilitar a mercancia. Em desacordo com seus desígnios primitivos, oculta toda e qualquer constatação indiscutível a fim de angariar adeptos, aliciar tolos, aquartelar um exército dócil, submisso e ignorante quanto aos seus reais fins. Em oposição à própria essência, atravanca a porta de entrada ao conhecimento, obscurece o real e nos põe – ou, pelo menos, põe a mim – em constante combate contra o que parece ser.

“Não existem fatos, apenas interpretações”, disse Nietzsche, ignorando o nascimento, a vida, a morte, dentre tantas outras realidades incontestáveis. “Não existem fatos, apenas interpretações”, disse Nietzsche, prognosticando a base da pseudociência, da superstição e, também, da difusão de informações jornalísticas. Não existem notícias, apenas manipulação, penso eu, exausta, quase vencida pela luta constante, pelo enfrentamento contínuo, pela oposição firme e violenta entre o meu desejo de ver o quê e como as coisas verdadeiramente são e a imposição do que os outros – jornalistas, ideólogos, crédulos e apaixonados – gostariam que elas fossem. Acredite, isso cansa.

O NOVO PARÂMETRO

Não sou um exemplo de sociabilidade. Interajo pouco, evito aglomerações desde sempre, justifico ausências com desculpas esdrúxulas e estar só quase sempre é prazeroso para mim. Meu filho, ao contrário, é a vitrine do sociável. Extrovertido e bastante espirituoso, tem um interesse natural pela companhia de outros. Não costuma se acanhar à presença de estranhos, faz amigos com facilidade, gosta – e muito, de gente.

Com tais características, o esperado seria que eu estivesse animadíssima com nossa nova rotina, com a nossa nova maneira de se relacionar, e ele não. O lógico seria meu entusiasmo constante e sua incansável reclamação. Não tem sido assim, no entanto. Ele parece já totalmente adaptado aos mandamentos do distanciamento social, cumprindo-os todos com rigor muito além do exigido, o que me preocupa.

Se antes ele se aprontava às onze ansiando ver os colegas às catorze, hoje não faz questão alguma de encontrá-los nas aulas on-line, transmitidas ao vivo. Prefere assistir às gravadas, fazer seus deveres, sozinho e rapidamente, e se livrar daquilo como quem se livra de um grande estorvo. Insisto em lembrá-lo que o mundo lá fora ainda existe, que seus conhecidos estão lá, também em suas casas, saudosos de sua companhia. Ele me olha como se eu te pedisse para acreditar num Deus que não se faz presente, num Deus que não se vê. Coloco-o no banco de trás do carro, paramentado e contrariado, e levo-o à prova do ver para crer. Falho, obviamente. As ruas não parecem as mesmas e assustam, ainda mais a mim. Pessoas andam como se não buscassem um destino pré-definido, algumas batem no vidro e alisam a barriga. “Mamãe, por favor, vamos pra casa!” Passo pela porta de sua escola, pela calçada de alguns amigos. Tudo é visto com desdém. Seus apelos ganham um tom ainda mais impaciente e irritadiço, o que me convence a voltar. Em casa, o novo parâmetro lhe conforta e restabelece o contentamento de suas especificações. Ali está o seu novo normal.

Antissociais legítimos se envergonhariam de dizer isso, mas eu, que não firmei compromisso algum com conceitos, digo em alto e bom som: ainda não acostumei. Ainda são nítidos na memória os abraços, os apertos de mão, os sorrisos tímidos de cumprimento ou de agradecimento, que as máscaras descartáveis enclausuram como se de sua propriedade exclusiva. Ainda se encontram em minha memória recente os discursos extasiados, intermináveis e sem pontuação de meu filho, contando-me suas peripécias, reais e fictícias, ocorridas quando em companhia dos colegas, dos primos, dos avós.

Segundo Darwin, não são os mais fortes ou os mais inteligentes da espécie que sobrevivem, e, sim, os mais suscetíveis à mudança. Eu, que nutro uma rebeldia monumental ao tempo dos outros, ainda não acostumei. Não cumprir prazos, porém, nunca me impediu de alcançar minhas metas. Algumas até dobrei, mesmo quando não tinha mais graça. Agora, ver meu filho assim, ora colérico, ora macambúzio e ensimesmado, aumenta as chances de que me junte aos excluídos, aos reprovados pela seleção natural, porque não há quem se acostume, não há quem se adapte. Mas eu sou mãe e é próprio das mães desafiar tudo. Pelos seus, desafiam Deus, leis naturais, ciência. Entram em batalhas perdidas, chamam para o ringue quem não é do seu tamanho. Dão a cara a tapa, sabendo que o que vem de lá é muito mais do que podem suportar. Mas encaram. Nem sempre se adaptam, mas encaram. E eu – não seria eu a exceção.

ESPECIALISTAS DE QUITANDA

Quando meu filho nasceu, escrevi um microtexto, ainda sob os efeitos da anestesia. Nele, expus todo o meu esforço em controlar minha gravidez, meu parto. Nada saiu conforme o planejado e, inicialmente, bem inicialmente, senti-me injustiçada. Se eu tinha seguido todo o protocolo, cumprido todos os requisitos, obedecido a todas as regras, por que as coisas teimavam em caminhar por suas próprias pernas?

Naquele momento, dei-me conta de que justiça é um conceito puramente humano e isto foi escrito no tal microtexto com as mesmíssimas palavras. Somos ensinados, desde a mais tenra idade, ser tudo possível, bastando querer. Ser tudo alcançável, bastando seguir as instruções. Sermos todos vencedores em potencial, bastando persistir. De antemão, peço desculpas pelo spoiler a quem ainda não saiu desse estágio de dormência e apresento o que está por trás das cortinas: isso é uma grande mentira. O pódio não está à disposição de todos, só há ouro para um.

Acredito piamente no poder da resistência e do enfrentamento, na força de um desejo legítimo como motivadores e combustíveis do êxito. Certamente, quem segue a cartilha e não desiste com facilidade tem mais chances de vencer do que quem se entrega ao acaso. Certamente, também, as oportunidades, quando apresentadas a quem se prepara cuidadosamente para elas, têm mais chances de vingar do que quando se apresentam a negligentes e distraídos. Ainda assim, não há garantias.

O que vejo comumente, porém, é uma infinidade de especialistas de quitanda que se valem de conceitos como técnica e método científico, geralmente, por meio de um discurso bastante assertivo, vendendo certezas, caminhos fáceis, certos e seguros, passo-a-passo de chavões e outras cafonices. Uma turminha de gurus que não expõe em suas vitrines ciência, valores morais ou artísticos, mas tem na exibição de um suposto ganho financeiro próprio a isca para atrair um cardume de ingênuos.

Não vou mentir. Já caí nessa arapuca. Perdida, sem saber que rumo tomar, qual alternativa escolher, atendi ao meu lado crédulo, ao meu lado precário e me matriculei em um desses cursos on-line que prometem a felicidade plena, a riqueza e a glória para todo o sempre – e em três simples passos. A página inicial do curso oferecia um sem número de aulas. Todas intituladas de modo a atrair tolos mesmo. Cada aula se ligava a uma outra seguinte, onde supostamente estaria a resposta que eu buscava. Meu lado cético suspirava a todo instante: farsa! Mesmo assim, segui adiante. Tinha direito a sete dias de acesso gratuito e pretendia, nesse período, confirmar haver ali ou não a revelação do segredo.

Levei dois dias para solicitar o cancelamento de minha matrícula. Levei dois dias para cair em mim e perceber que a solução rápida e indolor que eu procurava não estava ali – e nem em qualquer outro lugar. Levei dois dias para atentar que certo mesmo está Jordan Peterson, quando afirma: “life is suffering“. Porque sofrer é mesmo inerente à vida. É um de seus elementos formativos. Resulta do choque constante entre desejo, ação, habilidade e possibilidade – variáveis personalíssimas que se atraem e se repelem em graduações demarcadas pelas circunstâncias do freguês. E não há alternativa. Não há porta de saída. Mesmo os que podem e ousam viver mimando a si próprios se sujeitam à dor. Mesmo os que podem e ousam atender a todo e qualquer desejo se sujeitam à dor. Talvez porque os recortes de prazer e felicidade que experimentamos sugiram a existência de um todo constante e sólido atingível e nos motivem a levantar da cama e nos manter em pé – embora não haja relatos autênticos ou evidências que a comprovem. A venda de práticas que ajudem a lidar e a conviver com as próprias frustrações, inclusive esta, não só é aceitável, como deve ser estimulada. A promessa e venda de caminhos livres de dor, merecimentos sem a imputação de forças físicas, morais e intelectuais intensas é desonestidade na sua forma mais descarada. Por isso, levar dois dias para me dar conta do óbvio, levar dois dias para me dar conta de que a vida não é justa, fácil ou indolor não me orgulha, ao contrário, me cobre de vergonha.