SOBRE HUMANOS OU GADO VERSÃO PRO

hush-naidoo-ENA_oGnLx6s-unsplash

Photo by Hush Naidoo on Unsplash

“Se você não acredita na irracionalidade inata dos seres humanos, tente criar filhos”. Esse é o conselho de Thomas Sowell que eu encarei como uma piada, até me tornar mãe.

Bem antes das dificuldades acadêmicas que o homeschooling revelou, meu filho já não parecia usar a razão para atender a qualquer de suas necessidades. Chorar, de forma persistente, e ser atendido repetidas vezes pareciam mero reflexo condicionado. Não demorou muito e a sua curiosidade constante sobre tudo, principalmente sobre o que havia além das janelas, as tentativas de se debruçar sobre elas, arrastando cadeiras pela casa me mostravam que, sim, havia ali claramente a capacidade de pensar. Já a ponderação e o discernimento, bem como a orientação da conduta pela previsão da respectiva consequência – princípios vitais da razão, não pareciam ser transmitidos de forma atávica. Ainda estavam, e assim continuam, em construção.

É certo que, mais cedo ou mais tarde, com os estímulos adequados, meu filho se familiarizará às técnicas da elaboração racional. Aprenderá a pensar analiticamente, a sopesar valores e a contestar de forma argumentativa. Não é certo, no entanto, que, mesmo dominando todas as técnicas, mesmo convencido da impossibilidade de se conhecer a verdade sem questionar suas próprias crenças, eventualmente ele não cederá aos seus instintos. Ou às suas paixões. Ou ao charme de uma ideologia. Mesmo nós, décadas à sua frente, em conhecimento e experiência, vez por outra cedemos a tais encantos. Vez por outra, deixamos de nos implicar nas questões que nos dizem respeito. Vez por outra, silenciamos e nos acovardamos para manter uma posição, um ganho. Vez por outra, marchamos coletivamente em direção oposta ao que nos define para transmutar crenças infundadas em verdade. Não guiados pela razão – essa ferramenta que nos distancia das demais espécies e tanto nos envaidece, mas por emoção, sua antagonista envolvente e traiçoeira. É ela. É a emoção que nos cega, nos sabota e nos instiga à autofagia. E, de tanto nos assistir atendendo aos seus apelos, penso que talvez a distância que há entre os humanos e as outras espécies não seja tão grande assim.

*Texto publicado originalmente na minha conta do Instagram em 19 de abril de 2020.

 

PRESOS À PRÓPRIA INSIGNIFICÂNCIA

Schopenhauer disse que “cada qual suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor do seu próprio ser. Porque na solidão o mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o espírito elevado toda a magnitude de sua grandeza”.

Sem a maquiagem e os disfarces que a vida social impõe, somos forçados a enfrentar o espelho refletindo nossa imagem despida dos títulos e conquistas que alimentam nosso autoengano. Sim, temos um talento nato ao autoengano. Mais do que enclausurados por decreto, altruísmo ou autoproteção, estamos aprisionados ao que genuinamente somos. Alguns de nós, vivendo a insignificância como de costume. Outros, deslumbrando-se ou deprimindo-se com a sua descoberta.

Não é extraordinário como o que, há vinte dias, era de suma importância e estava na ordem do dia, de todos os dias, agora esteja dividindo espaço com meias furadas, pijamas surrados e, talvez, algumas traças na segunda gaveta do armário? Não é extraordinário que títulos e documentos guardados em pastas recicláveis – lembretes do preço alto que nos concedemos – surtam nenhum efeito, influenciem nada e ninguém dentro do espectro de habilidades que a vida nos exige hoje, em casa? Não é absolutamente extraordinária a experiência de destilar pelos poros a ausência de elevação, de valor?

Somos bons em algumas coisas. Não em tudo. Não somos tudo o que desejamos. Não somos o outro. Não somos o ideal. Somos forçados a viver o oposto do que planejamos, atuando na dianteira de forças que nos são avessas. Mas é daqui, bem daqui desta fileira, que nós, mesquinhos e grandes, enxergamos a virtualidade do especial. Estamos presos, mesquinhos e grandes, ao que somos e isso é tudo o que somos. Carnes trêmulas tateando pela vida com umbigos que cheiram mal. Vocês também conseguem ver?

*Texto publicado originalmente na minha conta do Instagram em 09 de abril de 2020.

 

ESSA BODEGA TEM DONO?

Dos oito planetas do Sistema Solar (saudades, Plutão!), a Terra foi o único que reuniu as condições ideais para que a vida, como a gente a conhece, se estabelecesse. Nesse cenário exclusivo, nos formamos de carbono e arrogância. Como seres humanos, dotados de razão e consciência, produzimos grandes feitos. Nos orgulhamos deles e, se considerarmos que a casa que nos acolhe existe há bilhões de anos, mas estamos nela há meros milhares de anos, temos motivos concretos para isso.

Fizemos muito em pouquíssimo tempo. Se tudo der certo, quando meu filho tiver apenas 18 anos, já terá sido apresentado à lei da gravidade, ao equilíbrio térmico e à reflexão da luz – um entendimento avançado de como algumas coisas funcionam, sem precisar perder um dia sequer observando maçãs caírem de macieiras. Da observação de alguns e da contestação de outros, não só entendemos o funcionamento, como criamos, a partir disso, novidades antinaturais, facilitadores da nossa estada, bem como de nossa permanência. A cada geração, vemos melhorias próprias de quem teve o privilégio de criar um documento a partir de um modelo – uma transferência de conhecimento, congelado e embalado a vácuo, realizada através da linguagem e da escrita (também criações humanas).

Olhando assim, parecemos até ter total controle sobre o que nos diz respeito. Fazemos planos, nos organizamos, nos categorizamos, nos unimos e nos segregamos, julgamos o certo e o errado. Mas vira-e-mexe somos lembrados de que não estamos no comando. Um terremoto, um furacão, um tsunami, os vírus, as bactérias, até nossas próprias células nos lembram vez ou outra que não estamos. Em tempos como o de agora, atentamos, ou deveríamos atentar, para o fato de que essa bodega, aparentemente sem ordem e sem lei, tem dono, sim. E não somos nós.

*Texto publicado originalmente na minha conta do Instagram em 13 de março de 2020.

 

RECOMEÇO

moon

A quarentena imposta pela Covid-19 tem revelado o melhor e o pior de todos nós. Lidamos com ela e cuidamos de nossa saúde, física e mental, obedecendo à reserva do possível. Forçamos uma rotina mínima, criamos novos hábitos, enterramos e desenterramos outros.

Eu, por exemplo, voltei a escrever. Nunca parei, na verdade, mas, aparentemente como efeito colateral do isolamento, volto agora a escrever neste formato.

Sem mais a dizer ou justificar, recomeço então.