PRESOS À PRÓPRIA INSIGNIFICÂNCIA

Schopenhauer disse que “cada qual suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor do seu próprio ser. Porque na solidão o mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o espírito elevado toda a magnitude de sua grandeza”.

Sem a maquiagem e os disfarces que a vida social impõe, somos forçados a enfrentar o espelho refletindo nossa imagem despida dos títulos e conquistas que alimentam nosso autoengano. Sim, temos um talento nato ao autoengano. Mais do que enclausurados por decreto, altruísmo ou autoproteção, estamos aprisionados ao que genuinamente somos. Alguns de nós, vivendo a insignificância como de costume. Outros, deslumbrando-se ou deprimindo-se com a sua descoberta.

Não é extraordinário como o que, há vinte dias, era de suma importância e estava na ordem do dia, de todos os dias, agora esteja dividindo espaço com meias furadas, pijamas surrados e, talvez, algumas traças na segunda gaveta do armário? Não é extraordinário que títulos e documentos guardados em pastas recicláveis – lembretes do preço alto que nos concedemos – surtam nenhum efeito, influenciem nada e ninguém dentro do espectro de habilidades que a vida nos exige hoje, em casa? Não é absolutamente extraordinária a experiência de destilar pelos poros a ausência de elevação, de valor?

Somos bons em algumas coisas. Não em tudo. Não somos tudo o que desejamos. Não somos o outro. Não somos o ideal. Somos forçados a viver o oposto do que planejamos, atuando na dianteira de forças que nos são avessas. Mas é daqui, bem daqui desta fileira, que nós, mesquinhos e grandes, enxergamos a virtualidade do especial. Estamos presos, mesquinhos e grandes, ao que somos e isso é tudo o que somos. Carnes trêmulas tateando pela vida com umbigos que cheiram mal. Vocês também conseguem ver?

*Texto publicado originalmente na minha conta do Instagram em 09 de abril de 2020.

 

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