EM ESSÊNCIA, DESIGUAIS

Outro dia, assistindo aos Stories de Dani Chevalier, mãe de gêmeos bivitelinos da mesma idade de meu filho, lembrei de uma citação de Thomas Showell e direi logo mais o porquê.

Acompanho Dani há cinco anos, desde que meu filho nasceu. Como seus “gordinhos” são apenas um mês mais velhos que o meu, segui-la era uma forma de me antecipar e conhecer um pouco do que estava por vir. Nos desajustes do puerpério, buscava no futuro próximo que ela representava o consolo de que, sim, as coisas tendiam a melhorar.

Bebês choram. Fato. É assim que se comunicam. Lembro, porém, de uma observação interessante feita por Dani sobre um dos meninos chorar mais que o outro. Lembro também do seu esforço em manter-se justa e permitir que ambos tivessem sua atenção de forma equânime, mesmo visivelmente exausta pelas demandas que a amamentação exclusiva e em livre demanda impõe – sempre bom fazer esse tipo de ressalva nesses tempos em que muitos estão dispostos a desqualificar o outro, a conduta do outro, o amor do outro.

Nos Stories que mencionei acima, Dani relatava, com riqueza de detalhes, a diferença de personalidade dos meninos. Mesmo frutos do mesmo pai e da mesma mãe, nascendo da mesma barriga, no mesmo dia, expostos aos mesmos estímulos, frequentando a mesma escola, a mesma turma, respondem a praticamente tudo de maneira bastante distinta. Enquanto um é bom de boca, o outro é seletivo. Enquanto um ama esportes, o outro, artes. Enquanto um lê melhor que a média, o outro desenha com maestria. É aqui que entra Thomas Sowell.

Thomas Sowell diz não ser realista esperar igualdade de desempenho em divisões sociais amplas e profundas, já que nem mesmo criaturas nascidas dos mesmos pais e criadas sob o mesmo teto a atingem. Se essa régua não faz a medição da maioria das casas, fico genuinamente feliz. Na de Dani, e também na minha, ela parece bem acurada e abre espaço para uma consideração.

Discute-se a validade do mérito nas conquistas humanas, como se ele apenas pudesse se apresentar em experiências concorrentes entre A e B, sobrevindo A e B das mesmas bases. Sim, há mérito nas conquistas de quem, criado sob as mesmas condições e exposto às mesmas oportunidades, triunfa por esforço extra, por escolhas acertadas. Mas, se B, negro, pobre, quinto filho de mãe solteira, único irmão a concluir o ensino fundamental, ingressa sem incentivos e se forma em Harvard com distinção, fazendo A, seu diametral oposto, comer poeira, sua vitória não se dá por mérito? Dá-se, então, por quê? Sorte? Privilégio divino? Disposição favorável dos astros?

Eu vejo merecimento. Eu vejo um supramerecimento. Vejo um desejo forte e autêntico, um querer convicto e insone, que aceita e percorre rotas alternativas até encontrar aquela que o levará a seu intento. Mas concordo que ele não atua sozinho. Não basta querer, não basta acreditar. As leis da vida não foram escritas pelo roteirista de Lua de Cristal. É preciso agir, é preciso agir apropriadamente. É preciso se implicar no propósito. É necessário respeitar o tempo próprio das coisas. O tempo de plantar, o tempo de colher. Mas, mais uma vez, não é só isso. É preciso, ainda, uma dose de resignação. Àquele poder inominado que vê graça em nossa unicidade, que flerta com o que temos de insólito. Àquele código natural que faz diferenças, que prefere um indivíduo a outro, que confere destinos antagônicos mesmo a gêmeos univitelinos, seres geneticamente iguais, como eu e minha irmã. Àquele que manda e desmanda sem prestar garantias. Aliás, não posso acreditar que mesmo estando o mundo de joelhos ante a ameaça de um agente microscópico, ainda haja quem não acredite e não se sujeite a ele. Você é um deles?

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