ATA CONDOMINIAL

Esses dias participei pela primeira vez da reunião de condomínio. Moro no mesmo edifício desde meus seis anos, mas só aos 38 decidi participar.

A assembleia havia sido convocada para prestação de contas, eleição de síndico e o que mais ocorresse. O presidente da mesa sugeriu a alteração da ordem da pauta, a fim de que todos se sentissem confortáveis em votar determinados assuntos, antes da eleição. Todos acataram. Dois condôminos estavam claramente em clima de guerra. Para cada duas palavras proferidas pelo síndico anterior, dez contestações raivosas eram apresentadas pelos dois. Fizeram sugestões inviáveis. Não pensei muito e pedi a palavra. Refutei o que havia sido dito, fiz duas sugestões. Ambas foram acolhidas por unanimidade. Na eleição, os condôminos sedentos por mudança sugeriram que outro condômino se candidatasse em oposição à reeleição do síndico. Eu votei pela reeleição. Eu, minha vizinha de porta, minha vizinha de cima, um senhor do 3º andar e o próprio síndico, claro. Perdemos. Ao final, dois senhores da oposição, veteranos aqui, me viram crescer e brincar com seus filhos na infância, perguntaram se eu não tinha interesse em participar do conselho fiscal. Agradeci, mas recusei. Insistiram, então, para que eu reformulasse a convenção de condomínio e a atualizasse segundo o já não tão novo Código Civil. Aceitei com prazer. Cumprimentei os eleitos, agradeci e elogiei o trabalho do síndico anterior. Chamei o elevador e, mesmo diante do espelho, não lembrei ser mulher. Aliás, outro dia, um integrante da escória afirmou que não basta ter uma vagina para ser digna de direitos. A minha não foi sequer considerada quando de minha participação na reunião de condomínio. Não fui interrompida, minha fala foi ouvida integralmente, ninguém tentou me explicar algo que eu já soubesse ou menosprezar o que eu tinha para dizer.

Ao entrar em casa, meu marido tentava colocar nosso filho pra dormir. Fui à cozinha da forma mais silenciosa que consegui e abri um vinho. Minutos depois, ele se juntou a mim, ouviu a minha história e respondeu: “ainda bem que você foi”. E só ali, no acolhimento do seu colo, lembrei ser mulher.

*Publicado originalmente na minha conta do Instagram em 12 de fevereiro de 2020.

 

Uma resposta em “ATA CONDOMINIAL

  1. Minha querida, fico a cada publicação sua, envaidecida em ter uma escritora nata, inteligente, maravilhosa em questionar e expor com tanta sabedoria seus textos… Como sobrinha.
    Beijos!!!

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