O NOVO PARÂMETRO

Não sou um exemplo de sociabilidade. Interajo pouco, evito aglomerações desde sempre, justifico ausências com desculpas esdrúxulas e estar só quase sempre é prazeroso para mim. Meu filho, ao contrário, é a vitrine do sociável. Extrovertido e bastante espirituoso, tem um interesse natural pela companhia de outros. Não costuma se acanhar à presença de estranhos, faz amigos com facilidade, gosta – e muito, de gente.

Com tais características, o esperado seria que eu estivesse animadíssima com nossa nova rotina, com a nossa nova maneira de se relacionar, e ele não. O lógico seria meu entusiasmo constante e sua incansável reclamação. Não tem sido assim, no entanto. Ele parece já totalmente adaptado aos mandamentos do distanciamento social, cumprindo-os todos com rigor muito além do exigido, o que me preocupa.

Se antes ele se aprontava às onze ansiando ver os colegas às catorze, hoje não faz questão alguma de encontrá-los nas aulas on-line, transmitidas ao vivo. Prefere assistir às gravadas, fazer seus deveres, sozinho e rapidamente, e se livrar daquilo como quem se livra de um grande estorvo. Insisto em lembrá-lo que o mundo lá fora ainda existe, que seus conhecidos estão lá, também em suas casas, saudosos de sua companhia. Ele me olha como se eu te pedisse para acreditar num Deus que não se faz presente, num Deus que não se vê. Coloco-o no banco de trás do carro, paramentado e contrariado, e levo-o à prova do ver para crer. Falho, obviamente. As ruas não parecem as mesmas e assustam, ainda mais a mim. Pessoas andam como se não buscassem um destino pré-definido, algumas batem no vidro e alisam a barriga. “Mamãe, por favor, vamos pra casa!” Passo pela porta de sua escola, pela calçada de alguns amigos. Tudo é visto com desdém. Seus apelos ganham um tom ainda mais impaciente e irritadiço, o que me convence a voltar. Em casa, o novo parâmetro lhe conforta e restabelece o contentamento de suas especificações. Ali está o seu novo normal.

Antissociais legítimos se envergonhariam de dizer isso, mas eu, que não firmei compromisso algum com conceitos, digo em alto e bom som: ainda não acostumei. Ainda são nítidos na memória os abraços, os apertos de mão, os sorrisos tímidos de cumprimento ou de agradecimento, que as máscaras descartáveis enclausuram como se de sua propriedade exclusiva. Ainda se encontram em minha memória recente os discursos extasiados, intermináveis e sem pontuação de meu filho, contando-me suas peripécias, reais e fictícias, ocorridas quando em companhia dos colegas, dos primos, dos avós.

Segundo Darwin, não são os mais fortes ou os mais inteligentes da espécie que sobrevivem, e, sim, os mais suscetíveis à mudança. Eu, que nutro uma rebeldia monumental ao tempo dos outros, ainda não acostumei. Não cumprir prazos, porém, nunca me impediu de alcançar minhas metas. Algumas até dobrei, mesmo quando não tinha mais graça. Agora, ver meu filho assim, ora colérico, ora macambúzio e ensimesmado, aumenta as chances de que me junte aos excluídos, aos reprovados pela seleção natural, porque não há quem se acostume, não há quem se adapte. Mas eu sou mãe e é próprio das mães desafiar tudo. Pelos seus, desafiam Deus, leis naturais, ciência. Entram em batalhas perdidas, chamam para o ringue quem não é do seu tamanho. Dão a cara a tapa, sabendo que o que vem de lá é muito mais do que podem suportar. Mas encaram. Nem sempre se adaptam, mas encaram. E eu – não seria eu a exceção.

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