ACHISMOS, ATECNIA E MANIPULAÇÃO

Mais nova, eu não sabia bem o que queria ser quando crescesse. Queria ser, de tudo, um pouco. Viver em outras peles e ser muitas outras numa vida só. Assim, prestei vestibular para tudo quanto foi curso – jornalismo foi um deles.

Entrei na faculdade de Comunicação certa de que jamais seria apresentadora de telejornal. Gostava de escrever, mas dali eu queria sair radialista – ouvir música o dia todo e ainda ser remunerada por isso.

Nas primeiras aulas, pude rememorar aquela do meu ensino fundamental que me apresentou aos requisitos da escrita jornalística. Narração descritiva, objetividade, clareza. Disseram-me, tanto lá quanto cá, ser permitida a opinião do jornalista em raríssimas hipóteses, sendo a principal delas, quando sua experiência e autoridade despertassem no leitor o desejo mercantil. Mas, ainda assim, tal opinião revelaria-se ou deveria se revelar clara e transparente, não restando dúvidas quanto à sua natureza tendenciosa, de apreciação crítica, pessoal e ideológica.

Não demorei muito para ver que aquela não era a minha praia. Escrevendo ou ouvindo música, queria ser livre para não me ater a descrições ordinárias, pôr minhas experiências sensoriais em lentes de aumento, ouvir e sugerir o que agradava aos meus ouvidos, não aquilo viralizado segundo estratégias de marketing para estourar no próximo carnaval. Larguei o curso e, encantada com o surgimento das primeiras páginas pessoais on-line, iniciei meu primeiro blog.

Por muito tempo, porém, os conceitos do trabalho jornalístico orientaram minhas escolhas sobre onde e como me informar. Os maiores e mais antigos veículos de comunicação pareciam, além de resistentes aos efeitos de uma grande exposição, obedientes aos princípios básicos do jornalismo. Pareciam imparciais, fieis à realidade, noticiando fatos, os mais relevantes, e deixando o bagaço para os jornalecos – estes, sim, abastecidos pela ausência de profissionalismo, desimportância de conteúdo, má redação e maledicência apelativa. Era fácil selecionar. Era rápido me inteirar das ocorrências do mundo.

Por muito tempo, foi assim – embora, para a boa ciência, a memória não seja reconhecida como prova substancial, em razão de sua enorme suscetibilidade ao esmaecimento, às ilusões e suposições baseadas em pouca ou nenhuma ciência empírica. Mas, segundo meus – talvez falhos – arquivos mentais, só há pouco tempo o jornalismo deixou de ser assim.

No reverso do propósito, seu maior compromisso, hoje, parece a desinformação, a enganação, a perfídia. Na contramão da exatidão, verdades são distorcidas e maquiadas para facilitar a mercancia. Em desacordo com seus desígnios primitivos, oculta toda e qualquer constatação indiscutível a fim de angariar adeptos, aliciar tolos, aquartelar um exército dócil, submisso e ignorante quanto aos seus reais fins. Em oposição à própria essência, atravanca a porta de entrada ao conhecimento, obscurece o real e nos põe – ou, pelo menos, põe a mim – em constante combate contra o que parece ser.

“Não existem fatos, apenas interpretações”, disse Nietzsche, ignorando o nascimento, a vida, a morte, dentre tantas outras realidades incontestáveis. “Não existem fatos, apenas interpretações”, disse Nietzsche, prognosticando a base da pseudociência, da superstição e, também, da difusão de informações jornalísticas. Não existem notícias, apenas manipulação, penso eu, exausta, quase vencida pela luta constante, pelo enfrentamento contínuo, pela oposição firme e violenta entre o meu desejo de ver o quê e como as coisas verdadeiramente são e a imposição do que os outros – jornalistas, ideólogos, crédulos e apaixonados – gostariam que elas fossem. Acredite, isso cansa.

Uma resposta em “ACHISMOS, ATECNIA E MANIPULAÇÃO

Deixe um comentário:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s