DE VOLTA À OITAVA SÉRIE

Que eu me lembre, tive o primeiro contato com o coletivismo na oitava série. Naquele ano, eu era líder da turma pela segunda vez, eleita pela maioria dos meus colegas sem mesmo ter me candidatado. Quem lê essa informação imagina que eu era muito querida, popular, admirada pela turma. Não era bem assim.

Naquele ano, minha turma tinha ganho mais um integrante, repetente, com ar de autoridade que despertava em muitos o encantamento de quem parecia estar à frente, de quem supostamente sabia mais – algo incoerente, vez que se ele de fato soubesse mais, não estaria ali, de volta ao passado.

Fato é que, também sem me candidatar, fui eleita por ele sua presa principal, aquela que seria diuturna e constantemente achincalhada, ridicularizada e diminuída por apelidos e brincadeiras de mau gosto antes, durante e após as aulas. Naquele ano, minha vida foi um inferno.

Adolescentes são seres em transição, não são mais crianças, mas também não possuem o discernimento que se espera de um adulto integralmente desenvolvido. Aos catorze anos, minha blindagem emocional não havia dado sinais de que brotaria um dia e sem ela, aquilo doía mais, muito mais do que eu fazia parecer.

Algo interessante, que notei na época, foi o comportamento dos meus colegas, todos de longa data. À presença do meu algoz, eram todos debochados, pervertidos, canalhas. À sua ausência, eram as mesmas pessoas civilizadas, polidas e gentis que havia anos demonstravam ser. Vez por outra, um deles me procurava privadamente para dizer o quanto estimava minha amizade, o quanto discordava do que “faziam” comigo, embora não resistisse aos risos quando a avacalhação começava. Aquela variação comportamental, no entanto, não melhorava, nem piorava o julgamento que eu fazia deles: manada. Deixavam-se conduzir sem questionamento, maquiavam a própria racionalidade e subjugavam todo e qualquer impulso em sentido contrário com a finalidade de não serem eles próprios as próximas presas ou, pelo menos, postergarem ao máximo a sua vez. É a tal da camuflagem das zebras sobre a qual Jordan Peterson fala aqui: suas listras pretas e brancas não servem de disfarce nas savanas, não passam despercebidas pelo meio em que vivem, mas enganam bem seus predadores enquanto grupo. Quem não se destaca, não vira presa – a máxima que regula as zebras, a máxima que regulava meus colegas da oitava série.

Olhando para trás, chego a ser grata por ter sido presa logo cedo, por ter sido caçada, alcançada e ido a abate enquanto ainda limpava os pés no capacho da vida adulta. Foi ali, aos catorze anos, que aprendi a não levar a sério os elogios, os afagos, as declarações exaltadas de quem se diz amical, de quem se diz afetuoso. Foi ali, aos catorze anos, que aprendi a impedir que o meu interior se escandalizasse a cada nova ofensa, a cada novo dedo apontado, a cada nova rejeição. Foi ali, aos catorzes anos, que enxerguei nitidamente indivíduos, cheios de alternativas e possibilidades, fazendo escolhas em comum, unindo forças em detrimento de outro indivíduo isolado, dissidente. Foi ali, aos catorze anos, que aprendi, finalmente, a não ter a aceitação como um norte, a não esperar reconhecimento, aplausos ou, como se diz hoje, biscoitos por agir conforme o ideal de um coletivo imaginário.

Nunca, jamais, nem por um minuto, dos catorze aos meus atuais trinta e oito anos, desejei a quem quer que fosse o que não desejo a mim mesma. A liberdade de agir, pensar e falar que demando para mim é a mesma, sem qualquer fração a menor, que desejo a todo e qualquer ser humano. Omitir-se, exceder-se, agir como zebras enterrando a lógica e distorcendo os fatos para servir de suporte ao plano de poder alheio, ou para ganhar “likes“, seguidores e alimentar-se da admiração de boçais, assim como reduzir próximos e remotos a rótulos execráveis que em nada se assemelham aos seus significados também são itens do cardápio – caros, porém disponíveis a quem puder e quiser pagar por eles. Eu não posso. Eu não quero. Eu me recuso. Eu me recuso a optar por qualquer deles. Eu me recuso a obedecer a lideranças abjetas. Eu me recuso a seguir a manada hipócrita. Eu me recuso, principalmente, a reviver a oitava série.

Uma resposta em “DE VOLTA À OITAVA SÉRIE

  1. Pingback: DE VOLTA PARA O FUTURO | Vivz

Deixe um comentário:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s