PAIS, LEITORES CRÍTICOS: O VERDADEIRO PRIVILÉGIO


Embora a imposição de estar em casa em tempo integral nos dê a falsa impressão de mais tempo disponível, sinto, pessoalmente, que mesmo dormindo mais tarde e acordando ainda mais cedo que o usual, falta-me tempo para a execução de todos os meus afazeres. Não por ter mais e novas demandas. As minhas, pelo menos, continuam as mesmas. Mas muito mais por ter encaixado entre um afazer e outro a maior ilusionista temporal de todas, a leitura. Dos efeitos colaterais da quarentena, a leitura em série tem sido o que mais me agrada.

Diminuí o desperdício em redes sociais e passei a ler um livro atrás de outro. Coloquei minha grande fila de espera para andar. Um dos que li recentemente, O Mundo Assombrado pelos Demônios, de Carl Sagan, é a minha recomendação do dia. Sagan já me era familiar em razão das lembranças de meus pais do período em que moraram fora e assistiam ao seu brilhantismo na TV. Ele foi um dos maiores defensores do pensamento cético e da desmistificação da ciência para leigos. Já nas primeiras páginas, nota-se que era mesmo um craque no que fazia.

Sagan revela, logo no início, não ter aprendido as coisas mais essenciais com os seus professores da escola, nem mesmo com seus mestres universitários, mas com seus pais, que nada sabiam sobre ciência, mas estimulavam sua curiosidade, principalmente, pelo exemplo da leitura.

Minha identificação foi imediata.

Primeiro, porque essa foi também uma das grandes sortes que tive na vida. Observar a quietude e a concentração de meus pais lendo o que quer que fosse despertava em mim a curiosidade de saber que graça havia naquele folhear de páginas. Ainda, uma das grandes, senão a maior lembrança afetuosa da infância é a memória de meu pai lendo Histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos, por uma pequena sucessão de noites. À exceção da obrigatoriedade de buscar toda palavra desconhecida no dicionário, essa é das bagagens mentais que mais gosto.

Segundo, porque foram eles também que impuseram a mim e a meu irmão essa última lembrança, já não tão agradável, já bem mais maçante: a busca pessoal pelo significado de palavras novas, inicialmente; a busca pelos fatos, pelo outro lado, pela verdade, por fim. Era chato. Era cansativo demais. Se eles já sabiam a resposta, porque não a entregavam logo e acabavam com aquele martírio?

Nada me foi mais útil.

Os gatos pingados que leem isso aqui passaram pela alfabetização, obviamente. Muitos terminaram o ensino médio. Alguns colecionam diplomas e certificados. Não sei quantos, mas certamente não todos se deram conta da distância que há entre notas e inteligência, entre criação e reprodução, entre o que dizem seus títulos e o que são.

Eu, por exemplo, entendi logo cedo que só seria premiada com boas notas e várias estrelinhas em determinadas matérias se entregasse ao professor, através da minha caligrafia, o que ele queria, o que ele pensava, o que ele dizia univocamente. Quando ainda me achava livre para defender as conclusões a que chegava das coisas que lia, via e ouvia fora dali, escrevi uma redação questionando a provisoriedade da CPMF, que estava sendo prorrogada àquela época e sobre a qual todos falavam na TV. Empregar o termo ‘provisório’ numa cobrança que não trazia em si o seu fim não fazia dela provisória, escrevi. Questionei também a cobrança de tantos impostos, mediante a promessa de serviços públicos que, quando prestados, eram sabidamente ineficientes. Acrescentei a frase preferida de minha mãe: “tudo é pago em duplicidade”. Dias depois, recebi minha prova sem qualquer marcação em tinta vermelha que justificasse aquela nota tão ruim. Perguntei a razão daquilo ao professor que me respondeu apenas: não está boa. Contei aos meus pais com tristeza o que havia acontecido e, sem qualquer vacilo, me entregaram a solução mais pragmática possível: “repita o que ele disse em sala, diga o que ele quer ouvir e seja aprovada”.

Nenhuma receita de bolo deu mais certo para mim do que essa. Até experimentei escrever livremente muitos anos depois, na faculdade, o ambiente dito propício a essas coisas. Fim do semestre, aula de Penal I, o professor, doido pra se ver livre das inúmeras correções que antecediam as férias, informou-nos como se daria nossa última avaliação: uma redação contendo nossa opinião sobre a liberdade. Ingênua, expus exatamente o que pensava. Comecei com “somos livres como uma folha de papel pautado, cheia de bordas e limites que não podemos transpor”. Terminei com “não é porque podemos escolher entre duas alternativas ruins que somos livres”. Recebi a nota mínima a não estragar as férias do professor, novamente sem qualquer correção ou contestação em vermelho, e, com ela, a confirmação de que eu não era mesmo livre.

Volto a Carl Sagan. Assim como ele, sou grata aos meus mestres, todos. Se hoje sei ler, escrever, somar, subtrair, se hoje sei que antibióticos não matam vírus, apenas bactérias, devo a eles. Meus pais não teriam me transmitido tanto com a mesma didática, com a mesma paciência. Mas, assim como Carl Sagan, de novo, agradeço ainda mais a meus pais. Por contestarem cada convicção apressada, cada certeza infundada. Por incentivarem a investigação meticulosa, a leitura de todos os lados, a escuta de todas as vozes. Ainda, por me permitirem concluir de modo diverso, por evidenciarem a discordância como pressuposto do diálogo, o erro como algo que nos é inerente.

Meus pais não foram, e não são, condescendentes – como já ouvi de bocas impróprias. Quando tentamos transpor as temíveis margens intransponíveis, fomos punidos com rigor. Nunca se tratou de condescendência. Eles foram, e continuam sendo, defensores da liberdade. Não dessa liberdade vulgar, da boca de Matilde, usada para defender autoritarismo, intervenções e imposição de narrativas à força. Mas da outra. A estrita, a real, a que nos permite ser e não ser, a que nos permite escolhas, desde que por elas paguemos o devido preço.

E, pela permissão de ser livre dentro de um papel pautado, livre, responsabilizando-me pelas minhas decisões, reconheço, sim, um monumental privilégio. Reconheço, agradeço e me esforço para honrá-lo e merecê-lo. Só não me desculparei por isso.

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