DE VOLTA PARA O FUTURO

Photo by naomi tamar on Unsplash

Entre as poucas variações de atividade e cenários a que o confinamento tem me submetido, memórias da infância e da adolescência – nem sempre agradáveis -, insistem em ressuscitar. Há poucos dias, por exemplo, o meu ingresso no ensino fundamental veio à tona. Meu início no ensino infantil também. Tratemos deste último primeiro.

Não são extensas, nem variadas as lembranças do início de minha vida escolar. Do meu primeiro contato, especificamente, só lembro desta cena: minha mãe me entregando a uma professora simpática, que parecia feliz em me ver. Talvez eu estivesse atrasada, já que a sala estava cheia de crianças brincando em mesas coletivas. A professora me deixou à vontade para escolher onde sentar. Decidi por uma das cadeiras vagas, próxima à cabeceira, de uma mesa de meninas. Havia ali, à minha frente, um punhado de brinquedos esquecidos, desinteressantes aos olhos das outras, escolhidos por ninguém. Puxei para mim uma panelinha. Imediatamente, uma colega sentada à frente, mas mais à direita, tomou-a de minha mão e disse: essa não. Do mesmo montante desprezado, peguei, então, uma bonequinha. Novamente, essa não. Permanecemos nessa brincadeira até não restar qualquer pratinho ou ursino rejeitado. Tudo o que eu toquei passou de obsoleto e desprezível para imprescindível. Não lembro de ter me chateado ou me entristecido. Lembro de ter colocado os cotovelos sobre a mesa e descansado o queixo sobre os punhos fechados, quando então a professora pôs-se diante de mim e perguntou por que eu não estava brincando. Certamente pensei na resposta, mas tenho quase certeza de que não ousei verbaliza-la ali. Ela, então, puxou a cadeira vazia, sentou-se à minha frente e com seu antebraço trouxe ao meu alcance os brinquedos que me foram tomados e mais alguns. Não foi ali que me ensinaram a reivindicar direitos, nem foi ali que aprendi a me defender. Tanto conhecimento construído ao longo de séculos, tanto conhecimento encapsulado em livros de todos os tipos, tanto conhecimento à disposição dos que deveriam nos guiar, mas ali, na escola, não podiam encurtar o caminho e me dar algumas respostas. Eu deveria deduzi-las por conta própria, praticamente percorrendo o longo caminho das gerações anteriores, de pensadores anteriores, dos corajosos do passado que puseram uma hipótese à prova e facilitaram a vida dos que vieram depois. Não a minha, como se vê. Porque não foi ali que me ensinaram uma série de coisas, nem foi ali que deduzi umas tantas soluções. Foi depois. Muito, muito depois.

Já maiorzinha e alfabetizada, comecei o antigo primário pelo primeiro degrau de um colégio enorme e tradicional, de onde eu só deveria sair para entrar na faculdade. Como em A Cidade e os Cachorros, de Vargas Llosa, os mais novos eram os cachorros, humilhados pelos mais velhos até passarem ao ano seguinte, desatados do lugar de calouros. Eram muitas as práticas de subjugação, mas a que recordo com mais clareza é a “cusparada”. Todo santo dia alguém entrava na sala com a camisa molhada por tentar se limpar das nojeiras dos veteranos. Aliás, ter apenas a camisa suja era coisa de afortunado. Muitos recebiam o escarro no rosto, nos olhos, no cabelo. Pessoalmente, nunca fui escarrada. Era proibido atacar as meninas. Direitos iguais não eram tão alardeados naquela época e esse desequilíbrio nos conferia, a mim e às demais, um privilégio, uma proteção. Não o suficiente para que eu sentisse que não havia o que temer. A mim, sempre houve o que temer. Afinal, só Deus sabia quem havia criado aquela norma, quem fiscalizava seu cumprimento e quem vigiava a idoneidade do fiscal. Quando formavam um corredor polonês para desferir tapas e pontapés nos meninos, acontecia de uma menina receber uma cusparada reflexa, não intencional. Nessas horas, nos uníamos. Não para contra-atacar, nem mesmo para autodefesa. Nos juntávamos para sonhar. Para desenhar oralmente e almejar o paraíso na Terra, a paz mundial, a liberdade, igualdade e fraternidade reservados aos integrantes da segunda série.

No ano seguinte, lembro do semblante leve e destemido que exibíamos. Parecíamos todos libertos e recém chegados à Terra Prometida. Extasiados. Embevecidos. Encantados. Iludidos. Não demorou muito para meus contemporâneos tomarem para si a posição de carrascos. Pareciam esquecidos do quão dolorosa havia sido toda a humilhação do ano anterior. Pareciam alheios ao sofrimento, ao terror da constante ameaça. Idiotas. Nunca quiseram ser livres, eles próprios. Nunca quiseram vagar em paz, gozar do direito de ser e do de não ser. Nunca quiseram passar desapercebidos pelas escadarias. Sempre quiseram a manutenção do horror, da tirania. Não desejaram o pior a seus algozes. Nunca se dirigiram a eles diretamente ou deles se vingaram. Desejaram seus postos, apenas. Para exercer o poder que ele oferecia, para reproduzir contra terceiros a coação que até outro dia lhes ocorria. Idiotas.

Outro dia, me recusei a retornar à oitava série. Hoje, gostaria de não reviver o ensino infantil, onde os que supostamente mais sabiam intervinham como se soubessem tanto ou menos do que um de nós. Hoje, também, gostaria de esquecer o primário, época em que a expectativa de paz e o desejo de evolução moral não serviam para muito mais que a manutenção da própria guerra, num ciclo de retroalimentação entre vítimas e malfeitores – faces de uma mesma moeda. Mas já voltamos para lá, não é? Já nos empurraram escadaria abaixo, escarrados e subordinados às promessas falsas de sempre, aos sonhos irrealizáveis de sempre. Cara-a-cara com o primeiro degrau, novamente, não nos resta muito: permanecer tombados, estatelados, derrotados por fantasias privadas de sustentação ou, como os cachorros, lamber as próprias feridas, mirar no último degrau, onde está o futuro e, sem vacilar, voltar a subir. Eu estou pronta. Mais alguém?

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