LENTES DE AUMENTO

Dia desses, uma grande amiga pediu a mim um norte sobre adestramento canino. Não sou uma especialista no assunto. Baco, meu lindo e temperamental shih-tzu, não senta quando peço, não dá a pata quando estendo a mão, mas sai do meio do caminho quando peço licença e faz xixi no lugar certo desde seus três meses de vida – sendo esta última a distinção que despertou a curiosidade de minha amiga.

A fim de ajudá-la a educar sua nova mascote, uma pequena maltês, expliquei o pouco que havia aprendido na TV com “o encantador de cães”, César Milan: reflexo condicionado, estímulo, premiação às atitudes corretas, indiferença aos equívocos e repetição, uma incansável repetição. Como costumamos fazer, permitimos que a conversa descambasse para outros assuntos, que embora humanos, não me pareciam totalmente dissociados.

Na tentativa de evitar a morte, que uma hora ou outra nos atingirá a todos, muitos têm visto nela uma saída para as angústias que se apresentam no isolamento. Uma psiquiatra afirmou há dias – ou meses, já não sei dizer –, que a quantidade de pessoas desistindo da vida aumentou triste e consideravelmente. Ao telefone, eu e minha amiga falamos também disso e não pude evitar pensar sobre o que podemos fazer para lutar e vencer a nossa própria incoerência.

O primeiro embate, acredito, é se dar conta de que boa parte dos problemas evidenciados pelo isolamento já nos era familiar, já nos fazia companhia. Os defeitos de quem divide conosco o mesmo teto, as falhas nos nossos relacionamentos, os erros passados, a ausência de garantias, a falta de dinheiro, para muitos de nós, já eram de nosso convívio próximo. A rotina atarefada, o tempo escasso para um sem fim de metas, as distrações da vida externa, no entanto, ocupavam quase que inteiramente o espaço disponível à instalação do ócio – e ócio, como se sabe, não é oficina de coisa boa.

O segundo ponto, decorrente do primeiro, é lembrar que na impossibilidade de esconder embaixo do tapete ou de deixar para amanhã o enfrentamento ao que nos importuna, a exposição constante, diária, sem folga, férias ou mesmo intervalo intrajornada, projeta os holofotes e cria sombras horrendas, maiores e mais imponentes que o objeto em foco. Mas, como se diz a uma criança de 4 anos em uma, duas, em todas as noites: não há fantasmas, não há monstros sob a cama.

A terceira e última questão a ser ponderada é jamais esquecer que somos todos a razão de sorrir de alguém. A nossa capacidade de pagar boletos, que, como tudo mais, não é definitiva, nem estável, nem constante, não nos define em absoluto. Não é isso que atrai ou repele o afeto alheio. A vida é cíclica e a maré não só seca, nem só enche. Das palavras em voga, repetidas por todos até causarem aversão, resiliência é a que entendo mais útil. É preciso persistência, insistência e visão a médio/longo prazo. Assim como no adestramento canino, os erros, as falhas, as perdas não devem ganhar atenção para que não cresçam. Os pequenos acertos, por menores que sejam, devem, contrária e enfaticamente, ser celebrados para que desabrochem e se estabeleçam.

Baco sujou a casa inteira até o dia em que deixou de sujá-la. Àquela época, eu não tinha certeza ou qualquer garantia de que, repetindo conselhos de um guru de TV, ele aprenderia o certo algum dia. Não me dei outra opção senão a de continuar. Repeti dia após dia, várias vezes por dia, o que acreditei ser o certo. Confiei. Lutei fortemente contra meu instinto primeiro em reagir a seus erros, em puni-lo. Engoli a seco a impaciência, o cansaço, a desconfiança e pus seus raros acertos em lentes de aumento. Deu certo. Cresceram, firmaram-se e há 10 anos ele faz xixi no mesmo lugar. Não esmaeçamos, portanto. Ainda estamos sujos, confusos e vacilantes. Mas sigamos firmes. Desconfiados, talvez, mas firmes. Não enxergamos ainda, mas quase posso sentir: o resultado, a luz, a premiação que buscamos, o consolo para todo esse sofrimento, está logo ali.

O QUE NOS PRENDE

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Photo by Will O on Unsplash

Dentre os pecados capitais, a inveja talvez seja o único unânime no constrangimento que provoca. Não há quem assuma que sente, quando sente, nem por quem sente. Colocar-se como objeto de inveja, no entanto, não parece fazer vergonha quando se analisa o volume de invejáveis autointitulados e a desinibição com que usualmente pavoneiam sua suposta condição. Nas redes sociais, por exemplo, não é necessário muito tempo ou esforço para encontrar publicações de pessoas incumbindo à inveja as críticas que recebem por seus erros e fracassos.

Em Mal Secreto – inveja, Zuenir Ventura faz uma distinção logo de cara entre inveja e cobiça que vale sempre a lembrança. Segundo o autor, a cobiça se atém ao desejo pelo que é do outro, sem que isso implique a destituição da posse ou qualquer outro prejuízo ao paradigma. Já a inveja seria o círculo concêntrico de maior diâmetro, que engloba a cobiça em seu núcleo e a qualifica pelo dissabor que a prosperidade alheia desperta. É, ela é feia. Repugnante. E quando se converte em imagem mental ou real, de nós mesmos ou de terceiros, causa tanta repulsa quanto qualquer de nossas iníquas humanidades. Não tratarei mais dela, portanto. Falarei da inofensiva cobiça apenas. Do desejo individual que não impede ou se ressente de quem possui ou também deseja.

Anos atrás, assistindo ao programa de Jamie Oliver na TV, um diálogo entre ele e um morador de Nova Orleans me impactou. Jamie estava gravando uma série de episódios sobre a culinária americana e chegou à Luisiana poucas semanas depois da passagem do furacão Gustav pela mesma região. Intrigado, o apresentador questionou um de seus entrevistados sobre qual seria a razão de não saírem todos de lá com seus filhos e panos de bunda. Ele próprio, um pouco antes de obter sua resposta, afirmou que esta seria a sua escolha, caso morasse em um lugar tão sujeito a desastres naturais (os furacões Andrew e Katrina já haviam deixado ali um legado de devastação e morte em intervalos não muito extensos). O entrevistado viu no afeto a justificativa da permanência, sua e de muitos de seus conterrâneos. A família, os amigos, as redes comunitárias, a história pessoal eram todos fatores vinculativos, eram todos elementos entrelaçados e enraizados no afeto.

Segundo a primeira lei de Newton, todo corpo continua em repouso ou em movimento até que forças opostas aplicadas sobre ele alterem o estado em que se encontra. Pelo que se vê, a natureza e seus propósitos secretos não parecem impingir força suficiente à migração de muitos dos habitantes da Luisiana. Daqui debaixo, embora num ambiente infenso a catástrofes naturais, a insegurança pública e a jurídica, a hostilidade generalizada, a cultura da corrupção e a irrevogável Lei de Gerson parecem aplicar, a meu ver, força mais do que suficiente para que muitos de nós pensemos em nos retirar. Poucos, no entanto, mesmo podendo, abandonam suas casas, desencravam suas raízes. A maioria de nós resiste, a maioria de nós se mantém umbilicalmente ligada a nossos consanguíneos, intrinsecamente atada a nossos irmãos por eleição. Impelimos força contrária digna de ventanias devastadoras e, como se sabe, da soma de forças opostas equivalentes nada resulta.

Eu não estou entre os que podem sair. Estou, sim, entre os que pensam nisso com alguma frequência. Não tenho dinheiro ou posses que me permitam fugir, mas das apostas na loteria de uma vez ou outra me concedo o direito de sonhar com a porta de saída. Não tenho dupla nacionalidade e longe de mim invejar quem a tem. Não vim falar sobre inveja, como disse. Não me incomoda quem quer ficar, não me causa qualquer desconforto também quem deseja ir. Agora há no jardim do vizinho o que desperta não só a minha atenção, mas, principalmente, o meu interesse: o passaporte extra e o desprendimento de partir. Nunca tive o primeiro e o segundo perdi. Se você os tem, fique tranquilo. Não é inveja o que sinto, garanto-lhe. Mas, por via das dúvidas, não custa rezar uma Ave Maria antes de dormir.