O QUE NOS PRENDE

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Photo by Will O on Unsplash

Dentre os pecados capitais, a inveja talvez seja o único unânime no constrangimento que provoca. Não há quem assuma que sente, quando sente, nem por quem sente. Colocar-se como objeto de inveja, no entanto, não parece fazer vergonha quando se analisa o volume de invejáveis autointitulados e a desinibição com que usualmente pavoneiam sua suposta condição. Nas redes sociais, por exemplo, não é necessário muito tempo ou esforço para encontrar publicações de pessoas incumbindo à inveja as críticas que recebem por seus erros e fracassos.

Em Mal Secreto – inveja, Zuenir Ventura faz uma distinção logo de cara entre inveja e cobiça que vale sempre a lembrança. Segundo o autor, a cobiça se atém ao desejo pelo que é do outro, sem que isso implique a destituição da posse ou qualquer outro prejuízo ao paradigma. Já a inveja seria o círculo concêntrico de maior diâmetro, que engloba a cobiça em seu núcleo e a qualifica pelo dissabor que a prosperidade alheia desperta. É, ela é feia. Repugnante. E quando se converte em imagem mental ou real, de nós mesmos ou de terceiros, causa tanta repulsa quanto qualquer de nossas iníquas humanidades. Não tratarei mais dela, portanto. Falarei da inofensiva cobiça apenas. Do desejo individual que não impede ou se ressente de quem possui ou também deseja.

Anos atrás, assistindo ao programa de Jamie Oliver na TV, um diálogo entre ele e um morador de Nova Orleans me impactou. Jamie estava gravando uma série de episódios sobre a culinária americana e chegou à Luisiana poucas semanas depois da passagem do furacão Gustav pela mesma região. Intrigado, o apresentador questionou um de seus entrevistados sobre qual seria a razão de não saírem todos de lá com seus filhos e panos de bunda. Ele próprio, um pouco antes de obter sua resposta, afirmou que esta seria a sua escolha, caso morasse em um lugar tão sujeito a desastres naturais (os furacões Andrew e Katrina já haviam deixado ali um legado de devastação e morte em intervalos não muito extensos). O entrevistado viu no afeto a justificativa da permanência, sua e de muitos de seus conterrâneos. A família, os amigos, as redes comunitárias, a história pessoal eram todos fatores vinculativos, eram todos elementos entrelaçados e enraizados no afeto.

Segundo a primeira lei de Newton, todo corpo continua em repouso ou em movimento até que forças opostas aplicadas sobre ele alterem o estado em que se encontra. Pelo que se vê, a natureza e seus propósitos secretos não parecem impingir força suficiente à migração de muitos dos habitantes da Luisiana. Daqui debaixo, embora num ambiente infenso a catástrofes naturais, a insegurança pública e a jurídica, a hostilidade generalizada, a cultura da corrupção e a irrevogável Lei de Gerson parecem aplicar, a meu ver, força mais do que suficiente para que muitos de nós pensemos em nos retirar. Poucos, no entanto, mesmo podendo, abandonam suas casas, desencravam suas raízes. A maioria de nós resiste, a maioria de nós se mantém umbilicalmente ligada a nossos consanguíneos, intrinsecamente atada a nossos irmãos por eleição. Impelimos força contrária digna de ventanias devastadoras e, como se sabe, da soma de forças opostas equivalentes nada resulta.

Eu não estou entre os que podem sair. Estou, sim, entre os que pensam nisso com alguma frequência. Não tenho dinheiro ou posses que me permitam fugir, mas das apostas na loteria de uma vez ou outra me concedo o direito de sonhar com a porta de saída. Não tenho dupla nacionalidade e longe de mim invejar quem a tem. Não vim falar sobre inveja, como disse. Não me incomoda quem quer ficar, não me causa qualquer desconforto também quem deseja ir. Agora há no jardim do vizinho o que desperta não só a minha atenção, mas, principalmente, o meu interesse: o passaporte extra e o desprendimento de partir. Nunca tive o primeiro e o segundo perdi. Se você os tem, fique tranquilo. Não é inveja o que sinto, garanto-lhe. Mas, por via das dúvidas, não custa rezar uma Ave Maria antes de dormir.

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