A INCULTURA DO CANCELAMENTO

Originariamente, a tal “cultura do cancelamento” não parece um fenômeno cultural. Não reflete a evolução dos costumes, das tradições, menos ainda um “cabedal de conhecimentos de um grupo social”. Parece, sim, uma ação de marketing. Um produto digital, talvez. Com persona, estratégia, lançamento. A cultura do cancelamento pegou a muitos de surpresa, como uma tendência neon imposta por figurinistas de renome após décadas de absolutismo tom-pastel. Cores berrantes agrediram os olhos, mas não encontraram qualquer empecilho para se infiltrar em acessórios e vestimentas, quando algum influente disse que assim deveria ser.

Na incessante busca por conversão, likes e fazer parte, muitos seguem o ritmo da dança das virtudes. Qualquer discurso informal deve antes obedecer a um rigoroso protocolo humanista, sendo seu orador, preferencialmente, a encarnação da excelência moral e da conduta desumanamente ilibada. O sufocamento da liberdade individual se impõe ao que se pensa, ao que se faz e ao que se fala. Embora o novo código estabeleça respeito e empatia universal, a capacidade de se colocar no lugar do outro e a tolerância às suas escolhas e especificidades só ganham utilidade e se efetivam quando da defesa de uma panelinha, de um pequeno setor no fim do corredor.

Carlinhos Maia, conterrâneo de meus ascendentes, perdeu “amigos” e patrocinadores por não beijar seu marido no altar. A presença feliz de seus pais, de sua sogra, já o fazia amado e respeitado como indivíduo, como ser humano. Não precisava cumprir um checklist midiático e forçar, goela abaixo, quem é e como vive à sociedade Penedense. Aliás, quem conhece Penedo, sabe. Eu, por exemplo, aos treze anos, caí na besteira de ir à festa de Natal na casa de minha avó, Dona Glorinha, aderindo às tendências da época e exibindo impudicamente meu umbigo. Levei uma chamada desconcertante na frente da família inteira. Nunca mais me meti a besta. Carlinhos, nitidamente mais corajoso que eu, acabou virtualmente linchado. Não porque levou ao altar outro homem à vista de tantas Glorinhas. Mas porque as autoridades do politicamente correto não acharam suficiente todos os holofotes direcionados ao interior de Alagoas, não se contentaram com tantos senhores e senhoras de outros tempos, de outra geração, genuinamente alegres pela felicidade do vizinho, do conhecido, do amigo Carlinhos. Não acharam bastante sua liberdade de ser. Não examinaram nem por um minuto o cenário, a história, a conjuntura local. Quantos não se beneficiarão da trilha aberta a picadas por Carlinhos? O alto comando discorda – pela superioridade moral que diz possuir, só um beijo lascivo atenderia às demandas de quem se diz par.

Gabriela Pugliesi, profissional na arte de pisar em ovos, em usar as palavras certas para agradar a gregos e troianos, divulgadora do bem, da alimentação do bem e da conduta do bem, não foi por menos levada à forca virtual. Decidiu, no auge da pandemia, se aglomerar a meia dúzia de amigas em casa. Todas adultas, em pleno gozo de suas faculdades mentais, alfabetizadas e cientes dos riscos que estariam colocando a si mesmas. Ponderaram, decidiram. Por tal decisão, foram alçadas ao nível das bruxas medievais e queimadas vivas, como os detentores do certo, do digno, do honroso entenderam que deveriam ser. Gabriela pediu desculpas, encerrou sua conta no Instagram e após longo período offline, retornou pedindo clemência por um sem número de vezes.

Dizem por aí que estamos a caminho do progresso, da evolução. Leis, códigos e a mão pesada do Estado intervêm em muito mais do que deveriam, impondo limites ao nosso desejo, mas, principalmente, à nossa ação. Construímos um monumental arcabouço punitivo para as condutas humanas mais execráveis e, mesmo para elas, já se defere o direito ao esquecimento – para que, após o pagamento da pena, cada um toque sua vida, novamente, como quiser. A muitos, não se exige nem isso. Porque, a despeito do invólucro nobre de muitas das exigências da moda, os valores mais elevados e férteis ao surgimento de civilizações que se prezem minimamente não parecem despertar qualquer interesse ou mania coletiva. Honestidade é um exemplo – jamais ganha as passarelas.

Na contramão do real progresso, parimos, nutrimos e vemos crescer uma nova geração de futriqueiros, curiosos na janela, ociosos na calçada. Fiscais e fixados à vida alheia. Caga-regras num bizarro tribunal de exceção. Umas pragas infestadas em todo canto. Não em Penedo, como pude ver no último verão. Lá, parecem todos ocupados em manter o trabalho em dia, a casa limpa, a cama arrumada. Como Dona Glorinha, não perdem tempo com o mundo extra-muros. Quem quiser que ponha seus umbigos à mostra, que case, descase, que se aglomere. Que siga a tendência que melhor lhe aprouver. Mas, lá fora. Não na casa dela.